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Toda verdade é parcial.

Toda interpretação é parcial. Não há como ser diferente: eu enxergo, e associo, somente os pontos que estão à minha disposição. Cada pessoa observa os detalhes de um fato de acordo com os ensinamentos que recebeu ao longo da sua história pessoal. Existe, portanto, uma verdade que seja absoluta? Seria a “verdade consensual” uma verdade absoluta ou tão somente uma narrativa compartilhada? Existem pessoas que percebem detalhes que a maioria das outras pessoas não conseguem enxergar. É daí que surgem os grandes filmes, os clássicos literários e as correntes filosóficas. É daí, inclusive, que na ciência são criadas teorias e de onde são refutadas estas mesmas teorias. A única Verdade é a Vida - que é neutra, imparcial e implacável. Tudo o mais são narrativas mentais, baseadas nas interpretações e nas observações de pessoas que vieram antes de nós. Compreender isso nos liberta para buscarmos as percepções que mais se adequam a quem verdadeiramente somos e a quem genuinamente almejamo...

Sobre a verdade por trás da luta contra a legalização do aborto.

Num mundo ideal, ninguém deveria abortar. Não por ser imoral ou errado, mas porque há poucas coisas que sejam tão invasivas e traumatizantes para o corpo e para o psicológico de uma mulher. Não conheço ninguém que diga "o meu sonho é abortar" ou "abortei e foi maravilhoso. Recomendo". Você conhece? Não desejo a ninguém precisar passar por experiência de tamanho horror, mas desejo menos ainda a realidade em que vivemos. Hoje em dia, só aborta em clínicas, clandestinamente, quem pode arcar com os custos - que são altos. Quem não pode, que aborte em casa, no próprio banheiro - sujeita à própria sorte: de uma infecção grave até a morte, sem qualquer amparo, sem qualquer proteção institucional. Os abortos não deixaram de existir porque algumas dúzias de legisladores quiseram. Eles só se tornaram cada vez mais escondidos, silenciados. Quantas mulheres expõem, publicamente, suas dolorosas experiências? Pouquíssimas. E é esse silêncio ensurdecedor que cria espaço para uma p...

Sobre o Pai e a Mãe simbólicos e a realidade factual.

Quando somos crianças, à medida que crescemos também criamos histórias mentais sobre o mundo, sobre nossa família e sobre nós mesmos. E está tudo bem ser assim, já que a criança apreende e aprende acerca do mundo de maneira simbólica, não de maneira real. Por exemplo, o lobo mau é possível, é palpável, assim como são os 7 anões. Quando se é adulto, a coisa muda de figura. De repente, um lobo não pode falar nem tampouco comer uma vovozinha inteira, e seria muitíssimo improváv el encontrar 7 anões vivendo juntos numa casinha no meio da floresta. Uma bruxa jamais seria capaz de envenenar uma princesa com uma maçã, e um príncipe encantado... (não, nós continuamos acreditando em príncipes encantados, rs. Mas isso é assunto para um outro texto). O fato é que o mundo do adulto torna-se, aos poucos, menos simbólico e mais realístico. Ou pelo menos assim as coisas parecem ser... Quando somos crianças, criamos uma imagem simbólica do Pai e da Mãe ideais. Com o passar do tempo, à med...

Sobre o início e o fechamento de ciclos naturais.

Um dos maiores medos humanos é o de iniciar algo novo. O de sair do conhecido. O de abrir as portas e o horizonte para uma nova perspectiva... Sair da zona de conforto causa desconforto. Irrita. Cria confusão. E tudo isso é natural que seja assim. Quando eu me vejo desnorteada, confusa, paro e presto atenção ao que o meu corpo está querendo me dizer. E percebo: deslocar-me simbolicamente, movimentar-me de uma perspectiva de realidade para outra, cria em mim uma necessidade iminente de desconstruir o meu antigo eu. E isso causa angústia. Iniciar um novo projeto. Um novo relacionamento. Um novo emprego. Um novo curso. Uma nova identidade, etc. Os exemplos vão ao infinito... Contudo, a sensação quase sempre é a mesma: a de que as condições atuais, no prelúdio ou no bojo dessa transformação, são desconfortáveis. Geram aflição e ansiedade. Ao perceber isso, comecei a lidar com a minha ANGÚSTIA NECESSÁRIA com mais paciência. Passei a aceitá-la e a respeitá-la. Deixei de tentar contê-l...

Reflexões sobre o sexo...

Ontem, conversando com um amigo, surgiu o assunto sexualidade. Mais especificamente, o assunto "modalidades sexuais". Dizíamos que entre a penetração e as preliminares não existe uma hierarquia, afinal, cada um desses atos atende a uma necessidade momentânea específica. Eis que ele solta a seguinte frase: "não importa o que fazemos, mas com quem fazemos". Bingo! Num mundo onde ainda é tão forte a crença de que a penetração é que é "sexo de verdade", e de que tudo o mais enquadra-se nas denominadas preliminares, não é de se espantar que a lógica que reina é a de que as preliminares vêm primeiro, para só então vir o "sexo de verdade", como o grande prêmio a ser conquistado. Assim, bem mecânico mesmo. Como um script que alguém escreveu e que continuamos seguindo. Ocorre que, como bem salientou o mencionado amigo, no final das contas não importa como você começa nem  como você termina, mas com quem você desenvolveu a interação sexual. E mais: d...

Sobre "lugar de fala", "mimimi" e "racismo e homofobia são opiniões".

Quantos anos você tem? Vinte, trinta, quarenta? Talvez mais... Isso significa que você está há vinte, trinta, quarenta ou talvez mais anos vivenciando a sua própria experiência somente. Você enxerga com os SEUS olhos, sente com a SUA pele e interage com o SEU corpo 365 dias por ano há... anos. Ou seja, você nunca soube e nunca saberá o que é enxergar com os olhos e interagir com o corpo de alguém completa mente diferente de você. O que você sabe sobre como o outro se sente são ideias, apenas.  Conjecturas mentais . E tais conjecturas podem ser feitas a partir de um achismo sem qualquer embasamento fático, ou de um conhecimento supérfluo sobre a vida do outro, ou de um conhecimento mais aprofundado aliado à empatia. A origem das criações mentais (conjecturas) é você quem escolhe. Quando você opta por compreender a realidade do outro profundamente, empaticamente, naturalmente você reconhece que o seu lugar é completamente diferente do lugar do outro. Ou seja, você compreen...

Sobre o fóssil de Luzia e a nossa ancestralidade.

Lendo sobre o trágico incêndio que destruiu o acervo do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, deparei-me algumas vezes com a imagem abaixo, do fóssil humano mais antigo já encontrado, que remonta há cerca de 13.000 anos, denominado de Luzia... E, apesar da inestimável perda que o mundo teve pelo fato mencionado, é sobre Luzia, e não sobre o incêndio, que eu gostaria de propor uma reflexão. Como se pode notar na reconstituição do fóssil, Luzia tinha traços faciais hoje caracteri zados como "afrodescendentes". Em outras palavras,  Luzia era negra . O que significa dizer, sem medo de errar, que eu, você, minha vizinha, seu melhor amigo e nosso presidente necessariamente descendemos de negros. Necessariamente, sem precisarmos reconstruir nossas árvores genealógicas. Isso é pura lógica em ação. Se fôssemos reconstruí-las, no entanto, provavelmente (com uma probabilidade muitíssimo alta) descobriríamos que também descendemos de indígenas, de "brancos" e de o...