Sobre o Pai e a Mãe simbólicos e a realidade factual.
Quando somos crianças, à medida que crescemos também criamos histórias mentais sobre o mundo, sobre nossa família e sobre nós mesmos. E está tudo bem ser assim, já que a criança apreende e aprende acerca do mundo de maneira simbólica, não de maneira real.
Por exemplo, o lobo mau é possível, é palpável, assim como são os 7 anões. Quando se é adulto, a coisa muda de figura. De repente, um lobo não pode falar nem tampouco comer uma vovozinha inteira, e seria muitíssimo improvável encontrar 7 anões vivendo juntos numa casinha no meio da floresta. Uma bruxa jamais seria capaz de envenenar uma princesa com uma maçã, e um príncipe encantado... (não, nós continuamos acreditando em príncipes encantados, rs. Mas isso é assunto para um outro texto).
O fato é que o mundo do adulto torna-se, aos poucos, menos simbólico e mais realístico. Ou pelo menos assim as coisas parecem ser...
Quando somos crianças, criamos uma imagem simbólica do Pai e da Mãe ideais. Com o passar do tempo, à medida que percebemos a realidade e vemos que os seres humanos que cuidaram de nós não podem corresponder à imagem idealizada, passamos a tomar atitudes de julgamento para com aquele pai ou com aquela mãe reais. Esquecemos, quase sempre, que antes de serem genitores eles são seres humanos, com os acertos e com os erros inerentes.
Crescemos lidando com os pais reais, mas intimamente tentamos encaixá-los dentro da expectativa idealizada: "bem que ele/ela poderia ser mais assim", "ele/ela deveria fazer mais assado", etc. Será que poderia? Será que deveria?
Quão arrogantes nós filhos nos tornamos quando, ingenuamente, achamos que sabemos o que é melhor para os nossos pais? O quanto há de necessidade inconsciente de nos arrogarmos superiores àqueles que nos deram a vida, pelo sentimento visceral de "humilhação" inconsciente por sabermos que jamais poderemos retribuir o que nos foi dado de graça - o próprio corpo, que vive.
Se um símbolo existe dentro de mim, algo ele me diz... sobre mim.
Um Pai e uma Mãe simbólicos são AUTO-representações. Quando nos tornamos adultos e continuamos esperando condutas, afetos e palavras dos nossos genitores, essa atitude diz mais sobre nós mesmos do que sobre aqueles a quem chamamos de pai e de mãe.
Isso porque esperar do OUTRO, seja esse outro quem for, não passa de uma não-ação. Não passa de uma passividade vitimista travestida de boas intenções.
É claro que todos nós queremos pais amorosos, protetores, carinhosos, doadores, alegres, etc. Mas será que NÓS SOMOS esses pais incríveis que nós queremos que os outros sejam?
Será que as nossas crianças internas já foram algum dia acolhidas por nós mesmos, adultos que esperam o acolhimento lá de fora?
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