Sobre a verdade por trás da luta contra a legalização do aborto.

Num mundo ideal, ninguém deveria abortar. Não por ser imoral ou errado, mas porque há poucas coisas que sejam tão invasivas e traumatizantes para o corpo e para o psicológico de uma mulher.

Não conheço ninguém que diga "o meu sonho é abortar" ou "abortei e foi maravilhoso. Recomendo". Você conhece?

Não desejo a ninguém precisar passar por experiência de tamanho horror, mas desejo menos ainda a realidade em que vivemos.

Hoje em dia, só aborta em clínicas, clandestinamente, quem pode arcar com os custos - que são altos. Quem não pode, que aborte em casa, no próprio banheiro - sujeita à própria sorte: de uma infecção grave até a morte, sem qualquer amparo, sem qualquer proteção institucional.

Os abortos não deixaram de existir porque algumas dúzias de legisladores quiseram. Eles só se tornaram cada vez mais escondidos, silenciados.

Quantas mulheres expõem, publicamente, suas dolorosas experiências? Pouquíssimas. E é esse silêncio ensurdecedor que cria espaço para uma população inteira, sem qualquer conhecimento vivencial ou empático, achar o que quiser - com base unicamente em conjecturas mentais, em ideias - de cunho político, religioso, moral, etc.

Parece-me, portanto, que o apoio massivo à criminalização do aborto não se trata de amor à vida, mas de descaso com a saúde de uma parcela significativa, e específica, da sociedade.

Quantas mulheres você conhece que já abortaram? Acredite: esse número certamente é bem maior. 

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