Sobre "lugar de fala", "mimimi" e "racismo e homofobia são opiniões".

Quantos anos você tem? Vinte, trinta, quarenta? Talvez mais... Isso significa que você está há vinte, trinta, quarenta ou talvez mais anos vivenciando a sua própria experiência somente. Você enxerga com os SEUS olhos, sente com a SUA pele e interage com o SEU corpo 365 dias por ano há... anos.

Ou seja, você nunca soube e nunca saberá o que é enxergar com os olhos e interagir com o corpo de alguém completamente diferente de você. O que você sabe sobre como o outro se sente são ideias, apenas. Conjecturas mentais.

E tais conjecturas podem ser feitas a partir de um achismo sem qualquer embasamento fático, ou de um conhecimento supérfluo sobre a vida do outro, ou de um conhecimento mais aprofundado aliado à empatia. A origem das criações mentais (conjecturas) é você quem escolhe.

Quando você opta por compreender a realidade do outro profundamente, empaticamente, naturalmente você reconhece que o seu lugar é completamente diferente do lugar do outro. Ou seja, você compreende que só quem é negro pode nos dizer o que é ser negro, ser VISTO como negro e ser TRATADO como negro. Que só quem é homossexual pode nos dizer o que é ser homossexual. Que só quem é mulher pode nos dizer o que é ser mulher. E por aí vai...


Mas quando você alia a empatia ao conhecimento histórico do racismo, do machsimo e da homofobia no Brasil, por exemplo, aí, sim, você consegue ter um panorama aproximado da realidade de quem vivencia o preconceito todos os dias, 365 dias por ano, há... anos.


Isso é lugar de fala: eu só posso conhecer a MINHA realidade. Portanto, se quero reconhecer as dores do outro, preciso deixar que ele me fale o que vive. Preciso mudar as origens das minhas conjecturas mentais. Preciso renunciar meu protagonismo e minha vontade de querer saber tudo sobre todos.


E quando este outro me diz o que sofre, eu preciso acolher sua dor como minha, e compreender que as pessoas não são tratadas da mesma maneira exteriormente, apesar de sermos iguais em essência. Portanto, o que dói no outro e não dói em mim não é drama, não é "mimimi". É o que ele sente verdadeiramente. É o que eu sentiria em outras condições, se tivesse nascido com outras características.


Negar isso não diminui a dor do outro nem me isenta da responsabilidade de compreender meus privilégios numa sociedade que ainda não trata a todos igualmente, indistintamente.


Quer fazer diferente? Olhe diferente. Compreenda a partir do que os outros podem nos dizer, não mais do que você acha que o outro vive. Porque a mente que conjectura sem embasamento é a mesma mente que maltrata e segrega.

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